“Querido Diário! Estou pensando em fugir,
fugir desta casa, desta cidade, desta vida que não me pertence. Estou cansada
dessas regras sem sentido, me sinto como um animal, preso em uma coleira. Quero
ser livre, ser o que eu quiser, sem ter que dar satisfações a cada vez que eu
quiser sair pela porta. Quero ser quem eu sou não alguém que recebe ordens de
um rei que nem sabe cuidar de seu povo, quero que as pessoas olhem para mim
como eu sou, não apenas pelo meu titulo de princesa...”.
Fecho
o antigo caderno rápido, quando a porta é aberta abruptamente. Olho para porta
e nada vejo, me alevanto e pego a adaga na saia do meu vestido... Mas sou
jogada de costas no chão que me falta até o ar, colocam um lenço em minha boca
e controlo a minha respiração. Um homem fica em cima de mim, e eu não consigo
ver seu rosto e ele aproxima seu rosto do meu, ainda com o lenço em minha boca
e sussurra no meu ouvido:
-Venha
comigo princesa! – Eu faço que não com a cabeça e ele sorri. – É o Willian, não
um pervertido.
Solto
um suspiro e ele tira o lenço de minha boca, me ajuda a alevantar-me e eu lhe
dou um tapa no rosto tão forte que minha mão arde.
-Você
esta louco? Quer me matar do coração Willian? – Willian sorri mais uma vez e
pega minha mão, me puxando para fora do quarto. – Aonde vamos?
-Silencio.
– Ele sussurra e eu obedeço.
Ele
continua segurando minha mão fria, eu estava tremendo, eu tinha quase certeza
que não estava frio, mas eu estava com medo, e a mão quente dele me dava algum
conforto. Eu o conhecia há anos, desde meus seis anos e ele sempre esteve
presente em minha vida. Ele sabia que eu queria ir embora dali e talvez hoje,
ele estaria me ajudando para fugir. Passamos pelo grande salão e eu bato numa
estatua, fazendo-a cair no chão e se quebrar. Ele me olha apavorado e sai
correndo, me arrastando para fora do castelo. Joga-me em cima da cela do cavalo
e monta logo atrás segurando as rédeas do animal, fazendo-o disparar. Eu quase
caio por causa da rapidez do cavalo, eu estava de mau jeito também, ele me
jogou em cima do pobre animal, olho para trás e vejo as luzes sendo acesas e
gritos distantes dentro do castelo.
Willian
para o cavalo no meio de algumas árvores que poderia confundir com pedras e
bota sua capa em mim e eu o encaro. Mesmo a noite, eu conseguia ver aqueles
olhos verdes que tanto me fascinavam. Eu olho para os lábios dele, que estava
entre abertos e ele olhava para o nada. Eu me aproximo um pouco dos lábios dele
e quando ele olha para mim eu abaixo meu rosto e fico vermelha. “Eu não acredito, eu quase beijo o Will.”.
Sinto os olhos dele em mim e eu fico olhando para o chão e ouvimos patas de
cavalos e ele tampa minha boca e sussurra em meu ouvido:
-Eles
não vão nos ver aqui, não faça nenhum barulho. –Eu faço que sim com a cabeça e
ele fica olhando em volta, ainda com a mão em minha boca, delicadamente.
Solto
um suspiro e vou para baixo do braço dele, para tentar ver algo, ele ainda
tinha a mão em minha boca e ele se afasta um pouco, para me dar passagem. Não
escuto mais nada, mas permaneço em silencio, olhando para o castelo. Ele tira
delicadamente a mão de minha boca e desce do cavalo, pulando no chão como um
gato, sem fazer nenhum barulho. O cavalo da um passo para trás e eu seguro as
rédeas, procurando pelo Willian naquela escuridão. Alguma coisa segura meu pé e
puxa as rédeas de mim, montando no cavalo e eu mordo o lábio para não gritar,
aquela criatura que eu não sabia quem era faz o cavalo andar lentamente e
silenciosamente, ele estava em minha frente, mas não parecia o Willian. Jogo-me
do cavalo, caindo no chão, fazendo um barulho enorme de folhas e bato a cabeça
na pedra e o homem do cavalo me olha, e era o Willian, como eu poderia estar
enganada sobre não ser ele? Ele pula do cavalo e corre ate mim e pegando-me no
colo em segundos. Eu o encaro e ele tava serio, olhando-me sem expressão
alguma. Os olhos verdes analisando os meus olhos negros. Fecho os olhos, não
conseguia encarar ele depois de querer beija-lo agora pouco, quando me dou
conta, estou escorada no peito dele, montada no cavalo.
Sinto
a respiração dele no topo de minha cabeça, permanece imóvel e em silencio, eu
não sabia o que falar. Um lado meu queria agradecer a ele, outro lado meu
queria abraçar ele. Mas ele não era conhecido como um cara sentimental, ele muitas
vezes era frio comigo, tipo agora, ele não ligava para o que eu queria, e eu
estava estranhando ele ter me ajudado a fugir sem eu ter pedido.
-Por
quê? – Pergunto num tom frio.
-Hum?
-Por
que me tirou do castelo? –Ele nada responde, eu suspiro e digo num fio de voz –
Embora eu não tenha pedido para me tirar de lá, você me tirou. Eu contei a você
que queria sair de lá e você me ajudou sem eu pedir. Por quê?
-Não
sei. – Ele apenas disse isso e voltamos aquele silencio chato e perturbador.
O
cavalo diminui a velocidade quando se aproxima do mar, e eu notei que estávamos
na praia branca. Onde meu pai me proibiu de ir, por que ali habitava os
contrabandistas. Eu sabia que Willian não era um, mas ele morava com o pai
dele, que era contrabandista. O cavalo passa a caminhar lentamente e eu fico
olhando para o mar, e vejo algumas baleias ao longe, pulando na água e
ouvindo-as se comunicando entre si. Sinto-o suspirar silenciosamente e continuo
olhando para o distante oceano.
“Talvez algum dia, depois que eu morrer e
reencarnar eu posso ser algum animal marítimo, já que meu amor pelo oceano
nunca ira morrer.”
Olho
para frente e vejo algumas casas com luzes apagadas, do nada estamos cercados
de homens com espadas, apontadas para mim e o Willian. Willian levanta a mão e
eles abaixam as armas, dando espaço para nós passarmos. Olho para o Willian e
ele continuava com o rosto sem expressão. Ele continuava do mesmo jeito, frio.
Solto um suspiro.
-Alicia,
você estava presa lá, talvez por isso eu tenha lhe tirado de lá. – Ele para o
cavalo e segura meu rosto, fazendo-me encara-lo. – Você queria continuar lá?
Sendo tratada como criança, não como a mulher que você é?
-Não.
-Que
bom! – Ele sorri e beija minha bochecha, os lábios quentes pousaram
delicadamente ali e logo se afastaram.
Ele
desce do cavalo e me ajuda a descer. Um homem se aproxima de mim e fica me
olhando de um jeito malicioso e Willian me puxa para junto de seu corpo, eu
solto um gemido ao sentir o corpo dele grudado ao meu. Ele sussurra em meu
ouvido:
-Não
se preocupe ninguém aqui ira tocar em você, não ire deixar.
Quando
eu ia responder, uma mulher ruiva, um pouco mais alta que eu e um corpo
volumoso se aproxima de nós, com uma voz irritante.
-Will
você voltou querido. – Ela me joga na areia e agarra-o, beijando aqueles lábios
perfeitos dele.
Alevanto-me
furiosa e com ciúmes e saio andado ela me olha e diz:
-Mocinha,
fique parada ai! – Olho por sobre o ombro.
-
Você não manda em mim, querida.
Ela
se aproxima de mim e pega sua espada, apontando-a para mim, olho para trás e
pego a espada de um senhor de idade e a desarmo num golpe único e a derrubo no
chão, apontando a espada ao pescoço dela.
-
Se não sabe luta direito com uma espada, nunca use uma. – Vejo a moça tremer de
medo e me afasto dela.
Um
homem segura meu pulso e vejo que é o Willian e me solto dele e digo:
-Fique
com sua puta.
-Esta
com ciúmes? – Ele me olha incrédulo e eu fico vermelha de raiva.
-Não,
só odeio ficar entre casais. – Encaro aqueles olhos verdes perfeitos.
Uma
mulher loira, uns dez anos mais velha que eu se aproxima e diz para mim:
-Não
ligue para aquela assanhada, ela não lhe fará nada. –Ela me da um sorriso
confortador e o Willian se afasta e eu me sinto sozinha.
-Ele
jamais vai me entender... – Sussurro para mim mesma, mas a mulher ao meu lado
escuta e suspira.
-Todas
as garotas o querem, elas apenas transam com ele e nada mais. Ele nunca se
envolveu com nenhuma garota depois que viu a amada morrer. – Ela olha para as
costas dele. – É um bom rapaz.
Ela
começa a falar, que vai cuidar de mim ali, que ira ser como uma mãe para mim e
passa o braço pelos meus ombros, abraçando-me de um jeito diferente. Como o
David fazia comigo. Eu sentia falta do meu irmão mais velho, ele havia morrido
em uma guerra cruel. E eu tinha apenas quinze anos. A mulher me levou para
dentro de uma casa simples, com dois quartos, uma sala, uma cozinha, um
banheiro, um pequeno pátio e uma varanda na frente. Agente se sentou na varanda
e ela estava olhando para os homens arrumando a fogueira.
-Hoje
é dia de histórias, espero que goste.
-Vocês
são de que tribo? – Pergunto olhando para o Willian sentado, abraçado com
aquela mulher ruiva.
-Ciganos.
Não somos como os verdadeiros ciganos, claro, mas somos de origens ciganas.
Willian é filho de uma cigana.
-Eu
adoro os ciganos. – eu bato palmas levemente e uma musica começa a tocar e um
homem de mais ou menos vinte e oito anos aparece e da um selinho na mulher.
-Ah,
desculpe querida, não me apresentei. Sou Maria. Apenas Maria, sem sobrenome nem
nada, aqui esquecemos isso. Este é meu marido, Arthur. – Ele pega minha mão
delicadamente e a beija.
-Prazer
senhorita. – Eu dou um sorriso empolgada com a musica.
-Prazer,
sou Alicia... – Eles sorriem com meu jeito educado.
-Sabe
dançar musicas assim? – Dou um sorriso e me alevanto.
-
Mas é lógico que sim. Se não se importa Maria, posso roubar seu marido para uma
dança? – Maria da um risinho.
-Mas
claro que pode minha querida.
Arthur
e eu começamos a dançar perfeitamente, entre risos e sorrisos os outros nos
imitam e ora ou outra eu olhava para o Willian que me olhava de um jeito bravo.
Eu não ia me importar, estava me divertindo. Eu seguro uma parte do meu vestido
azul e dou vários giros, fazendo os homens todos se encantarem e ouvi alguns
comentários:
-Ela
dança feito cigana mesmo...
-Olha
o jeito que ela se move, tão delicadamente e sedutoramente.
Maria
estava rindo e começava a me imitar com uma garotinha de uns doze anos, eu dou
um sorriso e continuo dançando em volta da fogueira com o Arthur, ele sorria
feito bobo e olhava para a esposa. Cansada, me sento no tronco ao lado do casal
e da garotinha de olhos azuis. Ela era parecida com Maria.
-Esta
ficando frio. – Ela reclama e eu a abraço. – Obrigada.
-De
nada. – Dou um sorriso e fico abraçada nela, olhando a fogueira.
Fico
olhando para o fogo dançando, seduzindo-me para perto, quando vejo uma mulher
abraçada num homem, chorando. Eu me alevanto e fico olhando aquela imagem.
Willian me olha, estranhando meu comportamento. Maria se aproxima de mim e
pergunta o que eu vi e eu conto a ela, e ela fica seria. Sento-me novamente e
Arthur se alevanta e anda em volta do fogo.
-Contarei
uma historia que nunca foi contada numa noite de fogueira, pois temem que a
alma da princesa – e ele olha para mim – acorde e venha da floresta – nisso o
vento me atingi, balançando meus cabelos. – procurar pelo seu amado morto em
uma guerra cruel.
Eu
fico séria olhando para ele e tentando ignorar o frio que estava em minha
barriga, tentava ignorar as palavras lentas dele.
-A
princesa, foge de seu castelo por ter brigado com seu pai e atravessa a antiga
floresta – ninguém jamais entrava naquela floresta, diziam que aquela floresta
fazia os mortos se alevantarem. – encontrando um cigano, belo, de olhos verdes
– ele olha para Willian e depois continua olhando em volta – e cabelos negros
como a noite. A princesa tinha olhos negros e cabelos castanhos avermelhados,
uma beldade de mulher, – ele olha para mim – a pele dela era clara como o dia e
os lábios dela era perfeito.
Ele
continua olhando para mim, e eu olhando para ele, nós nos encarávamos e ele
começa a andar em volta da fogueira.
-Certo
dia, eles confessam estarem apaixonados, e neste dia, tudo para eles piorou,
pois era um amor proibido... Entre um cigano e uma princesa. Um dos dois teria
de abandonar seu povo, mas os dois eram apaixonados pelo seu povo e brigavam
muito por causa disso. A princesa, uma garota delicada, mas forte, o cigano um
rapaz frio, mas a amava mais do que a própria vida. – Ele olha para mim e logo
para o Willian, Maria olha para mim e depois para o Willian também. – Até que
um dia, houve uma guerra, entre ciganos e a realeza por causa do amor dos
dois... A guerra terminou, depois de seis dias, de uma agonia sem fim, de uma
dor sem fim...
Ele
fica em silencio de cabeça baixa por algum tempo.
-Até
que o cigano é atingido por uma espada no peito e morre sem ver sua amada. A
princesa enterra seu amado na antiga floresta... E lá ela se mata... E todos
que entram naquela floresta, e se aproximam da arvore central, onde os corpos
dos dois estão enterrados, em baixo daquela enorme arvore. Escuta perfeitamente
o choro da princesa, procurando a alma de seu amado.
Nisso
um vento forte começa e eu fico olhando para a floresta ao norte, Willian
também, agente quando éramos pequenos entravamos na floresta, e na ultima vez,
ouvimos o choro de uma mulher, a suposta princesa e saímos correndo. Willian se
alevanta e se aproxima de mim, olhando-me e eu olhava para a floresta, mas eu
sabia que ele estava ali, ao meu lado. Quando olho para frente, vejo um cigano,
com um lenço vermelho em sua testa e eu grito, alevanto-me e saio correndo.
-Alicia
– Escuto Maria gritar, mas eu continuava correndo e vejo o cigano do lenço
vermelho na minha frente e eu caio de costas no chão. Willian corre até mim,
pegando-me no colo chorando e me apertando contra seu peito, eu começo a chorar
junto com ele.
-Ela
pôde ver a alma do cigano, algo que a verdadeira princesa nunca viu – Um velho
aponta para mim – você é a reencarnação da princesa...
E
nisso eu desmaio.
...
Eu
acordo num quarto, não muito grande, minha cabeça doía e eu me lembrei do
cigano que eu havia visto ontem à noite, depois da historia, e o que o velho
havia me dito. Eu não era a reencarnação de uma princesa. Eu me alevanto e boto
um vestido cor de vinho de Maria, tomo um café da manha que ela fez para mim e
deixou em cima da mesa, saio da cabana e olho em volta. Só tinha mulheres.
-Você
viu mesmo o cigano da historia? – Maria aparece do nada e me pergunta isso.
-Deveria
ser alguém daqui... –Maria faz que não com a cabeça.
-Não
tinha ninguém na sua frente quando você gritou e correu, e nem quando você caiu
na praia Alicia.
Fecho
os olhos e me lembro do rosto do cigano, tinha alguma coisa do Willian e eu
sabia o que era... Os olhos.
-Olha
lá. – Maria aponta para o Willian sem camiseta, ajudando uns homens a cortar
lenha. – Ele viu uma mulher, ele disse que tinha algo de você... Os olhos.
-Os
olhos do cigano, eram iguais ao dele. – Ele olha para mim e sorri e eu fico
vermelha. Olho para Maria – Vou dar uma volta.
Saio
andando e me aproximo do mar, olhando meu reflexo nas ondas, meus cabelos
negros e lisos estavam presos num rabo-de-cavalo, e eu saio do mar, e começo a
andar sem rumo, quando sinto meu pulso sendo puxando. Viro-me e vejo o Willian
me encarando com um olhar diferente.
-Bom
Dia! – Ele leva a mão para o cabelo, bagunçando-o e eu sorrio.
-Bom
Dia Will. – Começo a andar e ele anda ao meu lado, quieto.
-Eu
a vi. Ela não era parecida com você, mas os olhos eram seus.
-Os
olhos “dele” eram seus. –Aperto a saia do vestido em minha mão. –Eu não sou a
reencarnação dela. –Ele suspira e me vira para ele, segurando meus ombros.
-Eu
não sou apaixonado por você Alicia, não somos o casal da historia, isso não vai
acontecer, tudo bem? – Eu sinto-me morrendo por dentro, mas nada demonstro.
-Eu
sei.
Me
solto dele e saio andando, o vento tocava em minha pele delicadamente, e eu
sentia a dor em meu peito, aumentar e aumentar, ele estava lá ainda, parado,
olhando para mim. Eu sabia disso, não precisava vez isso.
-Alicia...
– Ele grita e eu o olho, todos que estavam próximos olhavam para ele.
Eu
dou meia volta e passo por ele, e sinto algo ruim, uma dor em mim, dentro de
mim. Matando-me aos pouco.
“Eu simplesmente, não posso escolher, não
posso escolher a morte, não é uma opção, existe um propósito para tudo, todo
mundo diz isso.” Era noite, e eu estava de pé na beirada
do mar, de pé descalço, sentindo a água molhar meus pés. “Não existe uma historia de amor criada para mim, nunca existiu, eu
devo acreditar nisso.” O vento agitava meu cabelo suavemente, eu ouvia a
agitação atrás de mim, mas eu não me importava, eu apenas queria me jogar no
mar e esquecer tudo e todos. “Eu quero
fechar os olhos, me jogar de corpo e alma neste mar, e deixar a maré me levar
para qual quer lugar.” Fecho os olhos e sinto o gosto salgado do mar que o
vento trazia, sentia aquele sabor delicioso em meus lábios delicadamente. “Eu nunca acreditei em amor, apenas em
pessoas certas e em momentos certos.”
Alguém
me abraça por trás, deixando os braços descalçarem em minha barriga, eu olho
por sobre o ombro e vejo o Willian de olhos fechados. Volto a olhar para
frente, tentando acalmar meu coração que parecia saltar do meu peito. Ele beija
meu ombro e sussurra.
-Desculpe-me,
eu menti hoje cedo para você.
-Hum...
-Eu
apenas não queria que você pensasse que a historia se repetiria, eu quero te
deixar viver uma vida livre, não quero te prender... – Sinto as lagrimas dele
em meu ombro. –Mas te deixar livre assim, eu também não quero... – Ele aperta o
abraço. – Eu quero que você seja minha, somente minha...
Ele
beija meu pescoço e eu me viro, encarando os olhos verdes dele, aqueles olhos
verdes que eu amava ver, que eu amava tanto, que eu podia enxergar a alma dele.
Ele aproxima seu rosto do meu lentamente e eu fecho meus olhos, os lábios dele,
delicadamente tocam os meus, e ele afasta seus lábios um pouco e eu solto um
gemido quando ele cola seu corpo ao meu e ele me beija. Aquela dança erótica de
nossas línguas me excitava e eu queria que aquele momento nunca acabasse. Ele
desce a boca para meu pescoço, eu mordia meu lábio e arranhava as costas dele
delicadamente.
-Ei,
vocês dois, se querem fazer isso, façam num quarto. – Minha querida Maria
estava com a mão na cintura e um olhar reprovador para nós, eu escondo meu
rosto no pescoço dele e controlo o riso.
-Não
estamos fazendo nada. – Willian do um riso.
-Ainda
né? – Maria se afasta e eu olho para ele.
-Me
beije... – Eu peço com a voz um pouco rouca.
E
ele me beija de um jeito possessivo, de um jeito excitante. Ele morde meu lábio
inferior, abraçando-me carinhosamente.
-Eu
te amo...
-Eu
te amo... – Ele sussurra em meus lábios... – Sempre a amei.
Ele
me puxa para fora do mar, e me senta no tronco e busca um prato com peixe para
mim e para ele. Ele morde minha bochecha e eu dou um riso.
-Coma...
-Estou
sem apetite Will... – Ele faz um biquinho e eu mordo a boca dele.
-Você
tem que comer.
-Já
comi mais cedo, pergunte a Maria.
-Maria...
– Ele grita.
-Fala?
Maria
nem se vira para saber quem era. Ela continua fritando os peixes.
-A
Alicia já comeu? – Ele me olha e eu dou um sorriso.
-Faz
tempo Willian, você vai engordar a pobre moça assim.
-Eu
disse. – Eu dou um sorriso e ele sorri de volta. –Vou dar uma volta...
Pego
o cavalo de Willian e saio andando sem rumo, quando me dou conta, estou em
frente a arvore da história, eu não sabia o que significava, mas quando desci
do cavalo eu pude ouvir os choros da princesa, ou uma canção triste que o vento
trazia.
Não existem limites nas
guerras...
Aproximo-me
da arvore e olho em volta, era como se aquelas gotas fossem as lagrimas dela,
ela escolheu esse lugar por que era antes, um lugar lindo e perfeito...
Dizem que o amor pode vencer, mas
agora eu duvido disso...
Aquela
musica, triste e deprimente ainda tocava... Eu fico olhando para a arvore, e
para algo que brilhava bem no centro da raiz, entre uma fenda que eu tinha
acabado de descobrir.
Ele tinha dois corações, então
por que ele se foi...?
Olho
mais uma vez em volta, procurando encontrar a dona da voz, e que de algum
jeito, eu possa a fazer descansar para sempre. No seu leito mortal, junto com
seu corpo ou levar sua alma para o mesmo lugar que seu amado.
Não existem regras para eles, o
que importa é apenas a luta...
Aquela
musica, fazia meu peito se apertar e a dor que ali habitava, naquele local, me
matava aos poucos... Eu queria sair correndo dali, como um dia eu fiz quando
criança, mas eu sabia que não podia.
Ele era tudo o que eu tinha,
por que simplesmente teve que tira-lo...?
Um
vento forte agitou meus cabelos, e leves pingos caíram sobre meu rosto, e a voz
parecia mais perto...
Não posso continuar vivendo...
Não sem ele...
Uma
historia de amor, um amor proibido... Entre uma princesa e um cigano, as coisas
entre eles estavam erradas desde o começo, eles sabia que um dos dois teria que
negar seu povo sua existência, nenhum deles quis isso e pagaram com a morte.
Eu ainda lembro as palavras que
ele me disse antes da guerra...
Mas
eu fiz minha escolha, neguei meu povo, no momento em que o conheci. No momento
que ele passou a viver dentro de mim... Em meu coração.
Ele disse que era para eu
continuar...
Adotei
o povo dele, como minha família... Eu sei a escolha que eu fiz e não vou morrer
por isso, muito menos ele...
Mas como eu posso continuar...?
Aperto
a saia do vestido em minha mão úmida, e eu notei que estava suando frio, aquele
brilho no centro da fenda estava me chamando...
Se você não esta mais aqui?
Eu
dou um pulo ao ouvir o grito da princesa, um grito de dor, não de um machucado
que remédios podem curar, mas sim dor de amor. O vento agita meus cabelos
novamente e eu olho para trás e vejo a princesa, eu me afasto um pouco e
respiro fundo e estico minha mão e ela me imita, olhando-me... Ela não parecia
apenas um espírito procurando a alma do seu amado, ela parecia que estava ali,
agora, e que toda a dor que ela sentia, era uma dor que eu podia sentir... Mas
quando desço meus olhos para o peito dela, vejo um buraco na parte do coração e
ela estica a outra mão, mostrando-me seu coração que ela arrancou. Olho para a
fenda mais uma vez e aquele brilho, continuava me chamando. Me abaixo e pego
aquele brilho na mão e vejo que era um colar, em formato de coração com as
seguintes palavras escritas: I Love You.
Fecho
minha mão com o colar e olho para onde a princesa estava, e dos olhos dela saia
sangue e ela gritava algo, mas eu não conseguia ouvir, ela cai no chão, em
volta dos olhos estava preto como se ela não dormisse há anos... Algo dizia
para eu correr, eu monto no cavalo de Willian e faço o cavalo correr o mais
rápido que pode em direção de onde eu tinha vindo. Quando olha para trás, tudo
estava calmo como antes, mas quando me viro, a princesa estava em minha frente
e eu caio e corto a mão numa pedra... Olho para o sangue em minha mão e olho
para uma arvore escrita com sangue o nome dos dois... Priscila
e Rodolfo. Eu me aproximo de uma arvore e escrevo Alicia e Willian com o sangue de minha mão e um vento
agitava meus cabelos fortemente... Monto no cavalo e jogo o colar no chão,
fazendo o cavalo disparar e quando eu olho para trás a alma da princesa estava
caída ao lado do colar, chorando e chamando o nome dele. Volto a olhar para
frente, segurando firmes as rédeas e guiando o cavalo ate a praia branca.
Chegando
à praia eu vejo que os homens estão pegando suas armas e Maria me arranca do
cavalo dizendo algo, mas com aquele barulho todo, eu não escuto nada... Ela
grita dizendo que ia haver uma pequena batalha, em meu nome e eu grito e tudo
fica em silencio... Eu saio correndo procurando pelo Willian...
“Lendas e mais lendas... Desde quando eu
passei a acreditar nisso, desde quando eu deixo fantasmas me aterrorizarem...?”
Continuo
correndo e procurando pelo Willian no meio daquele pessoal todo, e não consigo
ver ele, sentir ele...
-Willian...!
Eu
grito chamando seu nome, e me dou conta que eu parecia à princesa da historia,
eu olho em volta, procurando por um rapaz de cabelos negros e olhos verdes...
Mas nada encontro. Eu o vejo falando com dois rapazes e eu corro ate ele, mas
ele se afasta e Maria diz que aquele não é ele... E quando o rapaz se vira para
me ver, no final... Não era ele... Maria me puxa para perto da casa dela e eu
vejo ele, eu corro ate ele e o abraço...
-Will...
– Ele me beija e diz que precisa ir... – não, não e não...
-Eu
tenho que ir não posso os deixar irem sozinhos... –Ele beija o topo de minha
cabeça e se afasta eu fico olhando para ele, eu sabia que aquela poderia ser a
ultima vez que eu veria... Assim...
No
meio da madrugada, eu estou sentada na varanda olhando para o mar, esperando os
homens que foram para a pequena batalha surgirem, mas nada acontece... O vento
agitava meus cabelos suavemente e começava a chover... Levemente mas começa a
chover. O cavalo de Willian para na minha frente, olhando-me...
Eu
pego a minha capa e monto no cavalo e vou à busca de Willian, ao amanhecer,
quando desisto de procura-lo... Encontro ele caído, encostado numa pedra, com
um corte perto do peito, e a respiração dele estava acelerada de mais... Eu
pulo para o chão e corro até ele, chorando e abraço ele, dizendo que ia ficar
tudo bem... Beijo ele de um jeito desesperado, ele solta um gemido e eu toco o
rosto dele, de um jeito desesperado.
-Sinto
muito Alicia... – A voz dele era fraca e eu não tinha voz...
-Você
vai ficar bem... Eu prometo... – Eu olho em volto e grito... – Alguém? Por
favor, eu preciso de ajuda... Alguém?
Ele
segura minhas mãos frias e eu olho para ele, chorando desesperada, pedindo com
o olhar que ele aguentasse, eu enterro meu rosto no pescoço dele, chorando
silenciosamente e ele sussurra.
-Eu
te amo...
-Eu
te amo. – Um vento forte agita nossos cabelos e a chuva termina, quando olho
para ele, não existia mais ele... Só um corpo vazio.
Três meses havia se passado...
E
eu ficava ali, olhando para o mar, sentada na varanda da casa de Maria, olhando
para alem do horizonte, gritando em silencio por que tinha que ser ele... E
esperando de algum jeito que ele voltasse e me abraçasse, mas isso nunca
aconteceu...
“Agora eu consigo sentir os sentimentos
escaparem por minhas mãos, sinto minha vida escapar pelas minhas mãos, e eu não
podia impedir... Se tudo o que me prendia a vida, foi arrancada de mim.”
Não
existia mais lagrimas dentro de mim, e as pessoas tinham pena e medo do que eu
poderia fazer, eu quase não comia, eu quase não bebia, só ficava ali... Olhando
para o nada.
“Aprendi agora, que viver sem amor, sem o
amor da sua vida... Não é viver, é apenas existir.”
Os
anos foram passando, e eu permanecia assim, até que a morte enfim me alcançou,
e eu desejava que a cada dia que eu fechava meus olhos, fosse a ultima vez...
Fosse para sempre.
“Minha historia, foi contada por eles,
sempre que existia um amor assim, mas ninguém nunca mais perdeu o amor da sua
vida, não houve mais casos entre ciganos e princesas... Todos sabiam agora que
isso levava a morte.”
Onde
as pessoas chamavam de outro mundo, eu o procurei... Mas não o encontrei,
afinal, ele não estava ali. Eu jamais poderia vê-lo ou toca-lo novamente...
Hwang Mi Hee