"Era tão estranho para mim ficar brigando com meus pais, aquilo me destruía aos poucos. Mas eu tinha que me manter forte, não por eles, mas por mim."
Dou um suspiro e olho pro céu, deixando as gotas de sangue mancharem o gramado verde, agora tingido de sangue. Fecho os olhos e sinto o vento acariciar meu rosto.
"Como eu queria que tudo terminasse aqui"
De repente um arrepio passa por meu corpo todo e sinto sendo observada, olho em volta e nada vejo. Solto um suspiro e continuo olhando o céu estrelado e escuro. Eu não sabia dizer onde tudo mudou, onde tudo virou um filme de terror ou de drama... Ou o meu pior pesadelo.
"Talvez tenha sido quando você foi embora... Não foi?"
Sinto as lagrimas correrem lentamente pelos meus olhos, quente no começo e gelada no final. Por que? Simples, por causa do vento.
Começo a caminhar para dentro da floresta, algo dentro dela me chamava e eu ia ficando com sono. Era como uma melodia, que me chamava para dentro dela, mais e mais. Eu não conseguia controlar meus passos, não conseguia parar, eu só queria seguir, para dentro daquela escuridão sem fim. Tudo de repente perde o foco e eu não sinto mais nada.
"Quando se deixa levar pela melodia é por que não existe algo que te prenda."
(- Os antigos diziam que algo dentro da floresta negra puxava as pessoas que estavam sofrendo para dentro dela, e era sempre garotas. Que tinha problemas com a família ou com as pessoas do vilarejo. Varias garotas foram encontradas mortas na beira da floresta. Outras com cortes profundo em todo o corpo. Os lideres dos vilarejos próximos diziam que elas se matavam por que não aguentavam seus sofrimentos. E aquelas que tinham os cortes perderam a consciência de tanto punir-se. - ele olhava para mim - Você realmente acredita nisso? É só uma lenda boba. - Ele olha para dentro da floresta. - Irei entrar na floresta, para provar que não existe nada lá dentro que irá lhe fazer mal. - Ele toca meu rosto. - Amo você.)
Tento me alevantar, mas meu corpo doía de mais, eu não conseguia ver nada, tudo estava escuro e meus olhos tentavam se adaptar ao escuro, tentando ver ao menos algo que definisse onde eu estava. Não, isso não era meu quarto, era o meio da floresta sombria e o sonho que eu tive, "dele" me contando sobre a lenda me apavorou. Mas nada falei, continuei calada. De repente meus braços foram presos e a dor foi enorme, mas eu não tinha voz, não conseguia gritar...
"Tomara que aqui seja onde tudo terminará"
E mais uma vez eu cai na escuridão absoluta.
- Onde eu estou? - Abro os olhos lentamente e vejo duas crianças e vários adultos em volta de mim. Tento me sentar, mas a dor era agoniante.
- Alice, o que te aconteceu? - A voz do líder do vilarejo me faz olhar para meu corpo e minha voz some... Os cortes... Eram tão profundos.
- Eu... Eu não s... - Não consigo terminar a frase quando ele me pega pelo pescoço, me prendendo contra uma arvore. - O que... - Mais uma vez sou impedida pelo tapa que ele me da no rosto.
"E meu coração gritava, implorava para eu correr, para eu ir embora e seguir minha vida sozinha."
- Você fez isso, para pôr duvida na cabeça das pessoas sobre a lenda da Floresta Negra não é? Só por que você briga com seus pais, que sua vida não é perfeita quer estragar a vida dos outros? - Ele me solta e eu caio diretamente no chão, ficando sem ar logo em seguida. Olho para o grupo de pessoas me olharem com pena e ódio. E eles se afastavam, se distanciavam e eu continuei ali, parada, esperando a dor passar. Meus olhos queriam se fechar...
"E eu quero que seja para sempre" pensei com o coração partido.
"E talvez algum dia você consiga sair deste jogo."
(- Tudo que eu queria, era que seu pai me aceitasse para seu companheiro... - Ele olha para o céu claro, os olhos incrivelmente azuis como o céu estavam magoados - Eu... Não consigo entender, não sou bom o suficiente para você? - Ele aperta os olhos, deixando as lagrimas caírem e eu o abraço. - Eu te amo e ele não pode impedir isso... - Ele balança a cabeça e da um sorriso triste - Esse sentimento... Nosso sentimento.)
"Eu não quero acordar... Eu quero continuar, à sonhar com você... Mas acho que isso não é mais possível né?"
Abro os olhos lentamente e eu estava deitada perto de um lago e os machucados não estavam mais em meu corpo, o que era totalmente estranho... Só os cortes na coxa que permaneciam... E os que eu havia feito nos pulsos. Eu me sento e molho os pés. Fico olhando pro nada, lembrando das palavras dele... Das ultimas palavras dele.
"Tudo que eu queria era que você estivesse aqui."
Olho para o céu, me lembrando daqueles olhos azuis.
"Mas você se foi não foi?"
Aperto os olhos, tentando não chorar, mas minhas lagrimas se juntam com o lago.
"E eu só queria que essa dor curasse, só queria que essa dor parasse e sumisse de dentro de mim."
Olho para trás quando ouço passos e vejo "ele"... Fico parada, com os pés na água, olhando em direção dele. Ele se encosta numa árvore, e fica ali, me olhando, me encarando mas nada diz. Ele olha para o céu, o mesmo jeito de sempre, quando esta pensando. Mas algo nele havia mudado, algo nos olhos, no jeito que ele encarava o céu... Principalmente no jeito que ele me olhava.
(- Me prometa, que nunca vai entrar na floresta negra? - Ele da um leve apertão em minhas mãos. - Me prometa Alice.)
As palavras dele vieram em minha mente automaticamente, eu queria perguntar por que, mas o olhar assassino que ele dirigia ao céu me assustava.
- Lembra... - A voz dele era fria e cruel - Quando eu pedi para você me prometer que jamais ia entrar na floresta negra? - Faço um sim com a cabeça. - Por que não obedeceu? - Os olhos dele ainda estavam focado no céu.
- Eu não entrei - levo uma mão perto do pescoço, algo dentro de mim pulava... Mas não era meu coração - Algo dentro dela me chamou para dentro. - Ele me olha com aqueles olhos assassinos, mas em alguns segundos... Em pequenos segundos eu pude ver "ele" antes de ir embora.
- Você não cumpriu não é? - Ele se aproxima de mim e eu dou um passo para trás - Você vai sofrer as consequências... "Ele" nunca desiste quando quer alguém... E o alguém da vez é você...
Eu caio na água gelada e cortante de inverno e quando olho para cima ele não esta mais lá.
"E talvez quando tudo passar, apenas resta um."
Saio do lago, toda molhada e com frio e tento passar pela floresta sem ouvir nada, mas a melodia começa a tocar... E eu perco o controle do meu corpo de novo...
"Eu gritava, implorava para que me deixasse em paz... Mas não conseguia falar uma palavra."
E mais uma vez, minha mente caiu no nebuloso escuro.
"E quanto mais você resistir a essa atração, mais machucado você sairá"
"Eu não quero abrir meus olhos e perceber que existem novos cortes e saber que pode ter sido ele que fez isso comigo... Ou que ele não fez nada para me ajudar."
Abro os olhos lentamente e vejo uma poça do meu sangue em volta de mim, eu estava no meio daquele sangue todo. Olho para minha barriga e vejo a letra W escrita com um risco bem no meio da letra. Tento me alevantar, mas eu caio novamente e dou um grito de dor ao sentir algo gravar-se em minhas costas. Fecho os olhos, e levo minha mão as costas e tiro a faca q estava ali. E me jogo nas gramas ensanguentadas novamente. Abro os olhos e congelo ao ver que era a faca que eu havia dado para ele e as lembranças vieram em minha mente.
"E as vezes você não consegue evitar, mesmo ferido, você não consegue odiar."
(- Nunca pensei em caçar coelhos com você sabia? - Ele da um sorriso tão lindo que eu o abraço - Ei, nenhum coelho vai te deixar marcas... Cicatrizes. - Ele vira o rosto para algum lugar solitário.
- Olha, ali tem um... - Olho para o lado e ele sumiu e quando olho para o coelho ele já esta com o coelho na mão. - Mas eu nem fiz nada. - Ele solta um pequeno riso.
- Tem uma faca? Preciso mata-lo se não ele pode fugir. - Eu pego a faca da minha bota e entrego a ele - Obrigada.
- É seu presente... - Viro o rosto, pois não queria que ele me visse corada. - Eu não queria te dar na frente dos outros... Não por vergonha, mas por medo da reação do meu pai. - Ele solta o coelho e me abraça. - Sei o quanto você queria esta faca então eu comprei pra você. - Ele me aperta mais e assim ficamos... Até escurecer.)
Encosto a faca no peito e começo a chorar...
"As coisas não era para ser assim."
Me alevanto e vou caminhando, me escorando nas árvores... Eu queria ir para casa... Casa. Será que alguém sentia minha falta? Começo a caminha normal e passo pelo meio da floresta e vejo um animal gigante, peludo...
"E quanto você foge da verdade, a verdade vai atras de você."
(- Um monstro vive dentro de mim e eu apenas queria que ele fosse embora... - Ele falava e os olhos dele nada demonstravam. - Tenho medo de te machucar. - Ele continuava deitado olhando pro céu.
- Você não vai me machucar e você não tem um monstro dentro de você. - Ele me encara mas nada diz.)
Homem e lobo... Animal feroz... Algo que pensei que não existia... Ele estava lá, onde eu tinha acordado na primeira noite e senti a dor nos meus braços.
(- Você acredita em lobisomens? - Ele pergunta olhando para a faca que eu havia dado a ele. - Seja sincera em.
- Não. - Olho para o céu estrelado e sinto o olhar dele em mim - Lobisomens são animais criados por imaginações férteis. É só uma história para assustar. - Ele se alevanta e sai andando. - O que houve?
- Nada. - E depois desse dia ele some.)
Eu caio de joelhos no chão, segurando o colar que ele havia me dado... Quando ele me beijou pela primeira vez e jurou nunca me machucar.
"Apenas foi uma promessa a mais... Onde não se pode confiar."
"E quando a verdade é revelada, você não consegue mais fugir"
Com o barulho das folhas ao momento que eu cai de joelhos no chão ele se vira e eu posso ver aqueles olhos azuis... Aqueles olhos azuis que eu amo. E mesmo sabendo que foi ele que me machucou... E mesmo sabendo que ele pode me matar eu ainda o amo.
"E você não consegue correr, não consegue falar. Apenas fica ali, parado."
Ele se aproximo de mim e começa a rosnar e fica me olhando, me encarando... Os olhos azuis estavam sendo torturados. Havia dor dentro deles, mas ele não parecia se controlar.
- Agora eu sei que tudo que criamos... É tudo que eu criei em torno de você. - Eu sussurro e os olhos dele ficam cheios de lagrimas.
"Adeus... Mas essa palavra não quer sair de mim."
"E agora é a parte final, onde tudo terminará."
Eu fecho os olhos e ele pula em cima de mim... E eu sei que é para sempre desta vez.
"Eu apenas vou lembrar dos momentos de felicidade... Com ele"
- William...!
"E nem sempre todas as histórias tem um final feliz"
Hwang Mi Hee